Google testa página inicial com IA e remove o tradicional botão “Pesquisa Google”

Renê Fraga
18 min de leitura

Principais destaques

  • Google começou a testar uma nova página inicial em que o tradicional botão “Pesquisa Google” dá lugar a três atalhos de inteligência artificial.
  • As novas opções permitem criar imagens, fazer perguntas sobre arquivos e iniciar sessões de brainstorming diretamente na página inicial.
  • O experimento reforça uma transformação maior na Busca: o Google está deixando de apresentar a pesquisa tradicional como única porta de entrada e colocando a inteligência artificial cada vez mais no centro da experiência.

Durante quase três décadas, poucas coisas na internet foram tão reconhecíveis quanto a página inicial do Google. O logotipo, a caixa de pesquisa e os dois botões logo abaixo dela formaram uma das interfaces mais simples e conhecidas da história da web.

Agora, essa fórmula está passando por um teste que pode parecer pequeno, mas carrega um significado enorme.

O Google está experimentando uma nova versão da sua página inicial em que o conhecido botão “Pesquisa Google” desaparece. No lugar dele, surgem três atalhos relacionados à inteligência artificial: “Criar imagens”, “Perguntar sobre arquivos” e “Brainstorming”.

A mudança foi observada inicialmente em usuários que acessam o Google sem estar conectados a uma conta e já foi identificada em diferentes navegadores, incluindo Chrome, Microsoft Edge e Comet. Isso indica que não se trata simplesmente de uma alteração específica de um navegador, mas provavelmente de um experimento controlado pelo próprio Google.

O detalhe mais curioso é que a busca tradicional não desapareceu. Ela continua funcionando normalmente pela caixa de pesquisa. O que mudou foi a maneira como o Google apresenta essa possibilidade ao usuário.

Em outras palavras, a empresa não está dizendo que pesquisar na web deixou de ser importante. Ela está testando algo mais sutil: e se a primeira coisa que o usuário fizer no Google não for mais necessariamente uma busca tradicional?

O botão que acompanhou o Google por décadas

Para entender o tamanho simbólico da mudança, basta lembrar como a página inicial do Google funcionou durante a maior parte de sua existência.

O usuário entrava no Google, digitava algumas palavras na caixa central e clicava em “Pesquisa Google”. Era uma interação extremamente direta. Não havia necessidade de explicar o que fazer.

O botão se tornou tão associado ao serviço que, para muitas pessoas, a própria ideia de usar o Google significava simplesmente escrever uma pergunta ou algumas palavras e apertar aquele botão.

No novo experimento, porém, essa lógica muda.

Abaixo da caixa de pesquisa aparecem três possibilidades que não existiam como opções principais na página inicial tradicional. Uma delas é voltada à geração de imagens. Outra permite enviar arquivos e conversar sobre o conteúdo deles. A terceira transforma a página inicial em uma espécie de ponto de partida para desenvolver ideias com a ajuda da IA.

O botão “Estou com sorte”, por outro lado, continua presente.

Isso cria uma situação curiosa: entre os botões tradicionais, um sobrevive e o outro é substituído por ferramentas de inteligência artificial.

Não significa que o Google tenha abandonado a pesquisa convencional. Se o usuário simplesmente digitar algo na caixa e pressionar Enter, a busca continua sendo realizada. A diferença está no incentivo visual oferecido pela página.

E esse incentivo pode dizer bastante sobre onde a empresa pretende levar o produto.

“Criar imagens” aproxima o Google da geração de conteúdo

O primeiro atalho, “Criar imagens”, representa uma mudança particularmente interessante.

Durante muitos anos, a principal função do Google foi encontrar conteúdo que já existia na internet. A pessoa fazia uma pergunta e recebia páginas, imagens, vídeos e outros resultados produzidos por terceiros.

A inteligência artificial muda esse modelo.

Em vez de apenas encontrar uma imagem existente, o usuário pode pedir que a tecnologia produza uma nova imagem de acordo com uma descrição. Segundo os relatos sobre o teste, o recurso está associado ao sistema de geração de imagens do Google e, nesse caso específico, exige que o usuário esteja conectado a uma Conta Google.

É uma diferença importante.

O Google deixa de ser apenas uma ferramenta para encontrar algo e passa também a oferecer uma ferramenta para criar algo.

Essa transição ajuda a explicar por que a inteligência artificial está ganhando espaço dentro da página inicial.

“Perguntar sobre arquivos” leva a IA para tarefas práticas

O segundo atalho talvez seja ainda mais revelador.

A opção “Perguntar sobre arquivos” permite que o usuário envie um documento e faça perguntas sobre seu conteúdo. Nos testes relatados, essa função pode ser utilizada mesmo sem login.

Imagine, por exemplo, receber um documento extenso e querer descobrir rapidamente quais são os principais pontos. Em uma experiência tradicional, seria necessário abrir o arquivo, procurar informações manualmente e interpretar o conteúdo.

Com uma ferramenta desse tipo, a interação passa a ser diferente.

O usuário pode simplesmente fornecer o arquivo e conversar com a inteligência artificial sobre aquilo que está dentro dele.

Essa ideia não surgiu do nada. O Google vem aproximando o Modo IA de diferentes tipos de entrada, incluindo arquivos e imagens. A empresa já descreveu recursos que permitem fazer perguntas detalhadas sobre conteúdos enviados, combinando o contexto fornecido pelo usuário com informações disponíveis na web.

Por isso, colocar esse recurso diretamente na página inicial parece ser mais uma etapa de uma estratégia maior.

Brainstorming transforma a busca em conversa

O terceiro botão, voltado ao brainstorming, leva a transformação ainda mais longe.

Uma busca tradicional normalmente começa com uma pergunta relativamente objetiva. O usuário quer encontrar uma informação e espera receber resultados.

O brainstorming funciona de outra maneira.

A pessoa pode chegar sem saber exatamente o que procura, apresentar uma ideia inicial e conversar com a IA para desenvolvê-la. É uma experiência muito mais próxima de um assistente digital do que de um mecanismo de busca tradicional.

Esse tipo de interação está alinhado ao próprio caminho que o Google vem adotando no Modo IA.

Em maio de 2025, a empresa explicou que o Modo IA foi criado para perguntas complexas, comparações, raciocínio em várias etapas e conversas com perguntas de acompanhamento. Em vez de depender apenas de palavras-chave, o usuário pode formular uma questão de maneira mais natural e continuar aprofundando o assunto.

Agora, a página inicial parece estar começando a refletir essa mesma filosofia.

A mudança faz parte de uma transformação muito maior

Seria fácil olhar para o novo layout e concluir que o Google simplesmente resolveu trocar um botão por três outros.

Mas o movimento ganha outra dimensão quando colocado dentro da evolução da Busca nos últimos dois anos.

A empresa começou a colocar respostas geradas por inteligência artificial diretamente nos resultados por meio das Visões Gerais de IA. Depois, criou o Modo IA, que permite uma interação mais conversacional e aprofundada.

Em 2025, o Google anunciou que o Modo IA deixaria de ser apenas um experimento restrito e começaria a chegar de forma mais ampla à Busca. A empresa também expandiu o recurso para outros países e idiomas, incluindo o português brasileiro.

Em maio de 2026, o Google foi ainda mais longe.

A companhia afirmou que o Modo IA já havia ultrapassado 1 bilhão de usuários ativos mensais globalmente, enquanto as consultas feitas nesse modo mais que dobravam a cada trimestre desde o lançamento. A empresa também disse que as consultas na Busca haviam alcançado níveis recordes.

Na mesma ocasião, o Google apresentou uma nova geração da Busca com IA, incluindo recursos mais avançados e agentes capazes de executar determinadas tarefas a partir de comandos do usuário. A empresa descreveu a atualização como a maior evolução da caixa de pesquisa em mais de 25 anos.

Isso é importante porque mostra que o teste atual não parece ser um evento isolado.

Ele acontece em um momento em que o Google está tentando redefinir o que significa pesquisar.

A própria caixa de pesquisa já está mudando

A transformação não está limitada à página inicial.

Em 2026, o Google também vem aproximando o Modo IA do Chrome. A integração permite que a barra de endereço do navegador funcione cada vez mais como um espaço para interagir com a inteligência artificial, incluindo opções para adicionar arquivos, imagens e abas abertas como contexto.

No aplicativo do Google e em dispositivos Android, a empresa também passou a aproximar a interface de uma experiência baseada em perguntas e comandos, incluindo acesso a recursos como geração de imagens e Modo IA.

Até o Gemini recebeu mudanças para reunir ferramentas como criação de imagens, Deep Research, Canvas e outros recursos dentro de menus mais acessíveis.

O padrão começa a ficar evidente.

A inteligência artificial não está mais sendo tratada apenas como um recurso adicional escondido dentro de produtos do Google. Ela está sendo colocada em pontos cada vez mais próximos do primeiro contato do usuário com a empresa.

E agora esse movimento chegou ao lugar mais simbólico de todos: google.com.

Por que o Google está fazendo isso agora?

Existe uma razão estratégica bastante clara para a mudança.

A forma como as pessoas procuram informação está mudando.

Durante décadas, pesquisar significava escrever algumas palavras e navegar por uma lista de resultados. Hoje, muitos usuários já esperam poder fazer perguntas completas, enviar imagens, anexar documentos, pedir comparações e continuar uma conversa.

O próprio Google reconhece essa transformação.

Em uma atualização publicada em 2025, a empresa afirmou que as pessoas estavam fazendo perguntas mais longas, complexas e multimodais à Busca. A companhia também disse que as consultas feitas no Modo IA eram significativamente mais longas que as buscas tradicionais.

Isso muda a função da página inicial.

Se o usuário já está acostumado a conversar com uma IA, oferecer apenas uma caixa de pesquisa pode parecer limitado. O Google pode querer mostrar, logo no primeiro contato, que sua Busca é capaz de fazer muito mais.

A nova página parece dizer algo parecido com:

Você não precisa apenas pesquisar. Pode criar, analisar e desenvolver ideias aqui também.

É uma mensagem simples, mas extremamente importante para uma empresa cuja identidade sempre esteve ligada à palavra “Search”.

A busca tradicional não está morta

Apesar do destaque dado à IA, seria precipitado dizer que o Google está abandonando o mecanismo de pesquisa tradicional.

A caixa continua no centro da página.

Além disso, a própria empresa continua afirmando que conectar usuários à web permanece como parte central da estratégia da Busca. Em atualizações recentes, o Google destacou recursos destinados a ajudar as pessoas a encontrar sites, conteúdo original e fontes específicas dentro das experiências de IA.

O que parece estar mudando é a posição da pesquisa tradicional dentro da experiência.

Antes, ela era a ação explicitamente indicada pelo botão “Pesquisa Google”.

Agora, o usuário pode simplesmente digitar e pressionar Enter, enquanto a interface oferece alternativas de IA como ações visíveis e prontas para serem utilizadas.

Essa diferença pode parecer mínima para quem conhece bem o Google, mas pode ser enorme para quem está chegando ao serviço pela primeira vez.

O teste também chama atenção por não exigir login

Outro aspecto interessante é o público que parece estar recebendo a nova interface.

Os relatos indicam que o experimento aparece principalmente para usuários que estão acessando a página sem fazer login. Há relatos de que os três atalhos podem desaparecer quando o usuário entra em sua conta e reaparecer ao sair dela.

Se esse comportamento for confirmado como parte intencional do teste, ele abre uma possibilidade interessante.

O Google pode estar experimentando maneiras de apresentar suas ferramentas de IA antes mesmo de o usuário criar ou utilizar uma conta.

Isso é particularmente relevante para recursos que tradicionalmente ficavam associados a produtos separados, como Gemini.

Em vez de esperar que uma pessoa procure o Gemini, descubra o Modo IA ou abra uma ferramenta específica, o Google passa a colocar essas possibilidades diretamente na frente dela.

É uma forma de reduzir a distância entre o usuário comum e os recursos de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o fato de algumas funções ainda exigirem login mostra que existem diferenças entre as experiências. A criação de imagens, por exemplo, continua dependendo de uma Conta Google nesse teste.

O que isso significa para o futuro do Google

É importante evitar uma conclusão precipitada.

O Google ainda não confirmou que pretende remover definitivamente o botão “Pesquisa Google”. Os relatos disponíveis tratam a novidade como um teste, e a empresa pode alterar, ampliar ou simplesmente abandonar a experiência.

Também não está claro quantos usuários receberam o novo layout, quais países estão incluídos ou quais critérios determinam a participação.

Por isso, ninguém deveria interpretar o experimento como uma mudança definitiva da página inicial.

Mas testes de interface também podem revelar prioridades.

E, nesse caso, a prioridade parece bastante clara.

A inteligência artificial está deixando de ser uma camada adicional sobre o Google Search para se tornar parte da própria identidade da Busca.

Isso combina com a direção apresentada pela companhia ao longo de 2025 e 2026. O Google vem transformando a Busca em algo capaz não apenas de localizar páginas, mas também de raciocinar sobre perguntas, analisar imagens, interpretar arquivos, gerar conteúdo, realizar pesquisas mais profundas e, cada vez mais, executar tarefas.

A página inicial é simplesmente o lugar onde essa mudança fica mais difícil de ignorar.

Durante anos, o Google ensinou bilhões de pessoas a fazer uma coisa: pesquisar.

Agora, a empresa parece querer ensinar uma nova ideia:

o Google também pode ser um lugar onde você conversa, cria, analisa e resolve problemas com inteligência artificial.

E talvez seja justamente por isso que a ausência de um pequeno botão esteja chamando tanta atenção.

O botão “Pesquisa Google” era apenas um elemento visual, mas representava a essência do produto. Retirá-lo, mesmo que temporariamente, é uma maneira bastante poderosa de mostrar que o Google acredita que a Busca do futuro pode ser muito diferente daquela que conhecemos.

Por enquanto, a pesquisa tradicional continua exatamente onde sempre esteve: na caixa central da página.

A grande mudança é que, pela primeira vez em muito tempo, o Google está testando colocar outras coisas no mesmo nível de importância.

E essas coisas têm todas uma característica em comum: inteligência artificial.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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