Principais destaques
- Sergey Brin, cofundador do Google, destinou mais US$ 20 milhões à campanha contra o imposto sobre bilionários da Califórnia e já ultrapassou US$ 100 milhões em gastos relacionados à oposição à medida.
- A Prop 40 prevê uma cobrança única de 5% sobre o patrimônio líquido de bilionários que eram residentes da Califórnia em 1º de janeiro de 2026, com arrecadação estimada em dezenas de bilhões de dólares.
- A proposta colocou alguns dos maiores nomes da tecnologia em lados opostos, enquanto empresários como Larry Page e Peter Thiel se afastaram da Califórnia e Jensen Huang, da Nvidia, declarou que está perfeitamente disposto a pagar.
Sergey Brin está colocando uma quantidade impressionante de dinheiro em uma batalha política que pode definir o futuro da tributação das grandes fortunas na Califórnia.
O cofundador do Google destinou mais US$ 20 milhões à organização Build a Better California, grupo que trabalha contra a proposta conhecida como Prop 40, ou imposto sobre bilionários. Com a nova contribuição, Brin já teria ultrapassado a marca de US$ 100 milhões utilizados para combater a iniciativa.
O valor chama ainda mais atenção quando colocado ao lado da possível conta tributária do próprio empresário. Com uma fortuna estimada em centenas de bilhões de dólares, Brin poderia enfrentar uma cobrança de aproximadamente US$ 13,3 bilhões caso a proposta seja aprovada e sua riqueza seja avaliada nos níveis considerados para o cálculo.
A disputa, porém, não é apenas uma questão pessoal para Brin. Ela se transformou em uma das maiores discussões sobre riqueza, impostos e futuro econômico da Califórnia em 2026.
E o detalhe mais interessante é que a proposta ainda nem entrou em vigor.
Como funciona o imposto que está provocando tanta reação
A Prop 40 prevê um imposto único de 5% sobre o patrimônio líquido de determinados bilionários. Diferentemente de um imposto tradicional sobre renda, a cobrança considera o valor dos bens e investimentos de uma pessoa, e não apenas quanto ela ganhou durante determinado ano.
De acordo com a análise oficial do Legislative Analyst’s Office da Califórnia, a medida atingiria bilionários que eram residentes do estado em 1º de janeiro de 2026. O pagamento seria devido em 2027, embora exista a possibilidade de parcelamento em cinco anos, com custos adicionais para quem escolher essa opção. Alguns tipos de patrimônio, como determinados imóveis, pensões e contas de aposentadoria, ficariam fora da base de cálculo.
A proposta deve atingir cerca de 200 pessoas. Mesmo sendo um grupo extremamente pequeno diante da população da Califórnia, a riqueza acumulada por esses indivíduos é gigantesca.
A análise oficial do estado estima que a medida poderia gerar dezenas de bilhões de dólares em receitas temporárias, embora também exista a possibilidade de redução de receitas futuras do imposto de renda caso alguns bilionários deixem a Califórnia. O governo estadual estima que essa perda poderia ficar abaixo de US$ 1 bilhão por ano.
Essa diferença é fundamental para entender a discussão.
O imposto seria cobrado uma única vez, mas a possível saída de grandes fortunas poderia afetar a arrecadação estadual durante vários anos.
Por isso, o debate não se resume à pergunta sobre quanto dinheiro a Califórnia conseguiria arrecadar. A grande questão é quanto dessa riqueza continuaria vinculada ao estado depois da mudança na legislação.
Por que Sergey Brin está gastando tanto dinheiro contra a proposta
Para Brin, o tamanho da conta potencial ajuda a explicar a intensidade de sua participação.
O empresário possui uma das maiores fortunas do planeta e grande parte de seu patrimônio está ligada a participações em empresas e outros ativos cujo valor pode variar significativamente. Uma cobrança de 5% sobre um patrimônio de centenas de bilhões de dólares pode chegar a vários bilhões de dólares.
O resultado é uma situação curiosa: Brin está gastando dezenas de milhões de dólares para tentar impedir uma cobrança que poderia chegar a bilhões.
O novo aporte de US$ 20 milhões elevou sua participação financeira na campanha para mais de US$ 100 milhões, segundo o novo registro citado nas reportagens sobre a iniciativa.
A estratégia não está limitada a publicidade contra o imposto.
A organização apoiada por Brin também tem financiado iniciativas eleitorais que poderiam dificultar a implementação da Prop 40. O grupo vem apoiando medidas que, caso aprovadas, poderiam limitar a criação de novos impostos e, consequentemente, criar obstáculos para a proposta dos bilionários.
Isso transforma a batalha em algo muito maior do que uma campanha convencional de comunicação.
É uma disputa pelo próprio ambiente político no qual a Califórnia decide como arrecadar dinheiro.
O dinheiro seria usado principalmente na saúde
Um dos argumentos mais fortes dos defensores da Prop 40 está justamente no destino do dinheiro.
A proposta determina que a maior parte dos recursos seja utilizada em áreas relacionadas à saúde. A Califórnia já movimenta mais de US$ 200 bilhões por ano em programas estaduais e federais de saúde, e o Medi-Cal, programa de assistência médica do estado para pessoas de baixa renda, representa uma parcela importante desses gastos.
A discussão ganhou força em meio às preocupações com cortes no financiamento federal da saúde.
Para os apoiadores do imposto, fazer com que os bilionários contribuam de maneira extraordinária seria uma forma de criar uma fonte temporária de recursos justamente em um momento em que programas de saúde podem enfrentar pressão financeira.
A lógica dos defensores é simples: a Califórnia abriga algumas das maiores fortunas do mundo e poderia utilizar uma pequena parcela desse patrimônio para proteger serviços públicos.
Os opositores enxergam a mesma situação de maneira completamente diferente.
Para eles, uma cobrança de 5% sobre a riqueza acumulada pode ser suficientemente pesada para fazer com que bilionários mudem de residência, transfiram estruturas financeiras e reduzam sua ligação econômica com o estado.
E é justamente essa possibilidade que transformou a migração de bilionários em um dos principais argumentos contra a medida.
Silicon Valley começa a olhar para fora da Califórnia
O debate já produziu mudanças concretas no comportamento de alguns dos maiores nomes da tecnologia.
Larry Page, outro cofundador do Google, está entre os empresários associados a uma mudança de residência para fora da Califórnia. Peter Thiel também se afastou do estado, enquanto outros bilionários passaram a concentrar mais patrimônio e atividades em lugares como Flórida e Nevada.
Sergey Brin também passou a ter uma presença importante fora da Califórnia. Ele comprou uma propriedade de aproximadamente US$ 50 milhões em Miami Beach, enquanto reportagens indicam que passou a dividir seu tempo com Nevada.
A Flórida aparece naturalmente nessa discussão porque não possui imposto estadual sobre a renda de pessoas físicas. Miami, em particular, transformou-se em um dos principais destinos para empresários e investidores extremamente ricos nos últimos anos.
Um dos exemplos mais chamativos foi Mark Zuckerberg.
O fundador da Meta comprou em março uma mansão de aproximadamente US$ 170 milhões em Indian Creek, na região de Miami. A operação estabeleceu um recorde de preço para uma residência no condado de Miami-Dade.
A compra aconteceu depois do início da discussão sobre o imposto, embora não seja possível afirmar simplesmente que a aquisição tenha sido feita exclusivamente para escapar da Prop 40. Há uma questão ainda mais importante: a proposta considera a residência da pessoa em 1º de janeiro de 2026, portanto comprar uma casa na Flórida depois dessa data não necessariamente elimina a obrigação relacionada ao imposto.
Esse detalhe mostra por que a situação é mais complicada do que simplesmente comprar uma mansão em outro estado.
Gavin Newsom também não está convencido
O governador da Califórnia, Gavin Newsom, é outro personagem importante nessa história.
Embora tenha defendido uma tributação maior para os extremamente ricos, Newsom não apoia a ideia de criar uma solução que possa simplesmente incentivar uma fuga de bilionários da Califórnia.
A posição dele é que a discussão deveria acontecer em nível nacional.
O argumento é que, se apenas a Califórnia cobrar uma taxa desse tipo, pessoas extremamente ricas podem mudar sua residência para outro estado e reduzir drasticamente sua exposição à cobrança.
Uma legislação nacional eliminaria, pelo menos em parte, esse mecanismo de migração entre estados.
Newsom também vem criticando uma estratégia financeira utilizada por alguns indivíduos muito ricos: tomar empréstimos usando grandes carteiras de ações como garantia.
Nesse modelo, uma pessoa pode obter acesso a enormes quantias de dinheiro sem necessariamente vender suas ações. Como o empréstimo não é tratado da mesma maneira que uma renda salarial, o mecanismo pode permitir que indivíduos extremamente ricos mantenham um padrão de vida elevado sem gerar o mesmo tipo de renda tributável que um trabalhador recebe em seu salário.
É uma questão que tornou o debate ainda mais amplo.
A discussão deixou de ser apenas sobre uma alíquota de 5%. Passou a envolver a maneira como os sistemas tributários tratam patrimônio, investimentos, empréstimos e ganhos que ainda não foram realizados.
Nem todo bilionário da tecnologia quer fugir do imposto
Talvez a parte mais curiosa dessa história seja que nem todos os grandes empresários do setor de tecnologia estão reagindo da mesma maneira.
Jensen Huang, CEO da Nvidia, adotou uma postura completamente diferente da de Brin.
Em uma entrevista à Bloomberg, Huang afirmou que não estava preocupado com a possibilidade de um imposto sobre bilionários na Califórnia. O executivo chegou a dizer que praticamente nem havia pensado sobre o assunto e que, como escolheu viver no Vale do Silício, aceitaria os impostos que o estado decidisse aplicar.
A conta potencial para Huang não seria pequena.
Estimativas publicadas no início do ano indicavam que o executivo poderia enfrentar uma cobrança próxima de US$ 8 bilhões caso a proposta fosse aplicada ao seu patrimônio.
Ainda assim, Huang argumentou que a Nvidia permanece ligada à Califórnia porque o Vale do Silício oferece algo difícil de substituir: uma enorme concentração de profissionais qualificados, investidores, empreendedores e empresas de tecnologia.
Esse ponto é especialmente importante.
Mesmo que um bilionário possa transferir sua residência pessoal para outro estado, fazer uma empresa inteira acompanhar essa mudança é muito mais complicado.
O ecossistema criado ao redor do Vale do Silício levou décadas para se formar. Universidades, fundos de investimento, startups, grandes empresas, engenheiros e executivos estão concentrados na região.
Para Huang, esse ambiente pode valer mais do que a economia obtida com a mudança.
A Califórnia pode ganhar bilhões, mas também correr riscos
A análise oficial do estado reconhece que é difícil prever exatamente como os bilionários reagiriam caso a Prop 40 fosse aprovada.
Esse é um dos maiores problemas para quem tenta calcular o impacto econômico da proposta.
O patrimônio de um bilionário não é necessariamente dinheiro parado em uma conta bancária. Uma grande parte pode estar em ações, participações empresariais, investimentos privados e outros ativos cujo valor muda constantemente.
Isso significa que calcular 5% da riqueza de uma pessoa pode ser muito mais complicado do que aplicar uma taxa sobre um salário anual.
Também existe o risco de planejamento tributário.
Bilionários podem tentar reorganizar investimentos, mudar estruturas empresariais ou alterar sua residência. Alguns podem simplesmente deixar a Califórnia.
O estado reconhece que essas reações poderiam diminuir a arrecadação futura do imposto de renda. A estimativa oficial aponta para uma possível perda inferior a US$ 1 bilhão por ano, embora o resultado real dependa do comportamento dos contribuintes.
Ao mesmo tempo, a arrecadação inicial poderia chegar a dezenas de bilhões de dólares.
É exatamente essa diferença que sustenta os dois lados do debate.
Os defensores enxergam uma oportunidade rara de arrecadar uma enorme quantidade de dinheiro com um grupo muito pequeno de contribuintes.
Os opositores enxergam uma ameaça à capacidade da Califórnia de manter esses mesmos contribuintes dentro do estado.
A batalha já começou antes da votação
A Prop 40 está prevista na cédula eleitoral de 3 de novembro de 2026. A proposta foi oficialmente qualificada para a votação de novembro, transformando o debate sobre o imposto em uma disputa que será decidida diretamente pelos eleitores.
Isso ajuda a explicar por que grandes fortunas já estão gastando tanto dinheiro antes mesmo da votação.
Brin não está simplesmente esperando para descobrir qual será o resultado.
O empresário está tentando influenciar o resultado antes que os eleitores cheguem às urnas.
A estratégia também mostra como a riqueza acumulada pelos fundadores das grandes empresas de tecnologia se transformou em poder político. Uma contribuição de US$ 20 milhões pode parecer gigantesca para praticamente qualquer pessoa, mas para um bilionário com patrimônio de centenas de bilhões de dólares ela representa uma fração muito pequena da fortuna.
Ao mesmo tempo, para uma campanha política, US$ 20 milhões podem financiar uma operação extremamente relevante.
Esse desequilíbrio é parte central da discussão sobre o papel dos bilionários na política americana.
O futuro do Vale do Silício também está em jogo
No fundo, a discussão sobre a Prop 40 representa uma pergunta maior: quanto um estado pode cobrar dos seus cidadãos mais ricos antes que eles decidam partir?
A Califórnia tem uma das maiores economias do mundo e construiu uma parcela enorme de sua riqueza moderna em torno da tecnologia. Google, Nvidia, Meta e dezenas de outras empresas cresceram dentro do ecossistema do Vale do Silício.
Ao mesmo tempo, a concentração de riqueza na região atingiu níveis extraordinários.
O estado agora precisa decidir se vale a pena utilizar parte dessa riqueza para financiar serviços públicos, mesmo correndo o risco de estimular algumas dessas pessoas a procurar outros lugares para morar.
A resposta não será simples.
Se a Prop 40 arrecadar dezenas de bilhões de dólares e a maioria dos bilionários permanecer na Califórnia, os defensores poderão apontar para a medida como um exemplo de como grandes fortunas podem ajudar a financiar políticas públicas.
Se uma parcela significativa dos contribuintes deixar o estado, os opositores terão um argumento igualmente forte de que a estratégia acabou reduzindo a base tributária e incentivando a fuga de capital.
Por enquanto, Sergey Brin parece disposto a gastar uma fortuna para impedir que esse experimento aconteça.
E o mais curioso é que ele não está sozinho nessa tentativa. Outros nomes extremamente ricos já estão procurando alternativas fora da Califórnia, enquanto Jensen Huang representa o outro lado da história, defendendo que o valor de permanecer no coração da tecnologia pode superar o custo de um imposto bilionário.
A decisão final agora está nas mãos dos eleitores da Califórnia. E, dependendo do resultado em novembro, a Prop 40 poderá se tornar apenas uma batalha estadual ou servir como um teste para uma discussão muito maior nos Estados Unidos sobre quanto os super-ricos devem pagar e como os governos podem tributar fortunas construídas principalmente em ações e investimentos.