Pesquisador da DeepMind deixa equipe de segurança e alerta para riscos da IA nos próximos cinco anos

Renê Fraga
17 min de leitura

Principais destaques

  • Josh Engels deixou o Google DeepMind e passou a trabalhar na METR, organização independente dedicada a avaliar capacidades e riscos de sistemas avançados de inteligência artificial.
  • O pesquisador afirma que existe uma possibilidade preocupante de a IA provocar danos de grandes proporções nos próximos cinco anos, principalmente se o avanço das capacidades superar a evolução das técnicas de segurança.
  • A saída acontece em meio a uma onda de alertas dentro da própria indústria, enquanto pesquisadores e executivos discutem se a corrida pela superinteligência está acontecendo rápido demais.

A corrida para construir sistemas de inteligência artificial cada vez mais capazes ganhou um novo capítulo de tensão dentro dos próprios laboratórios que estão liderando esse desenvolvimento.

Josh Engels, pesquisador que trabalhava com segurança e interpretabilidade no Google DeepMind, deixou a empresa e passou a integrar a METR, organização independente sem fins lucrativos especializada em avaliar capacidades e riscos de sistemas avançados de IA.

A mudança chama atenção não apenas pela saída de um profissional de uma das empresas mais importantes do setor, mas também pelo motivo apresentado por Engels. O pesquisador afirma estar preocupado com a possibilidade de os sistemas avançarem para níveis de capacidade que a humanidade ainda não sabe controlar adequadamente.

O alerta por trás da saída de Engels

Em uma publicação nas redes sociais, Engels confirmou que havia deixado o Google DeepMind e que estava começando uma nova etapa na METR.

A mensagem publicada pelo pesquisador também deixa claro que sua decisão não foi motivada por uma experiência negativa na empresa. Pelo contrário, Engels afirmou que seu período no DeepMind foi muito positivo.

O que mudou foi a avaliação sobre onde seu trabalho poderia ter maior impacto neste momento.

Na METR, ele pretende atuar em investigações relacionadas a incidentes de desalinhamento, buscando produzir evidências públicas sobre situações em que sistemas de IA apresentam comportamentos diferentes daqueles esperados por seus desenvolvedores.

“Acho que precisamos de mais tempo.”

A ideia resume uma das principais preocupações que vêm ganhando espaço entre especialistas em segurança de IA: não basta desenvolver métodos para tornar os modelos mais inteligentes. É preciso garantir que as ferramentas utilizadas para avaliar e controlar esses sistemas também acompanhem a evolução.

A própria METR descreve seu trabalho como uma tentativa de medir quando e como sistemas avançados de IA podem representar riscos graves para a sociedade. A organização já trabalhou com empresas como OpenAI, Anthropic, Google DeepMind, Meta e Amazon em avaliações de modelos e riscos.

O que é a automelhoria recursiva?

Um dos conceitos centrais nessa discussão é a chamada automelhoria recursiva.

A ideia é relativamente simples. Um sistema de IA suficientemente capaz poderia ajudar pesquisadores a criar modelos melhores, encontrar métodos de treinamento mais eficientes, desenvolver novas ferramentas ou identificar maneiras de superar suas próprias limitações.

Esse processo poderia criar um ciclo.

IA mais capaz → pesquisa mais eficiente → modelos melhores → IA ainda mais capaz.

O problema começa quando esse ciclo passa a acontecer em uma velocidade superior à capacidade dos seres humanos de analisar o que está acontecendo.

Hoje, empresas ainda conseguem realizar testes, impor limites de acesso e observar o comportamento dos modelos antes de colocá-los em determinadas aplicações. Mas, quanto maior a autonomia e a capacidade de um sistema, mais difícil pode se tornar prever todas as maneiras pelas quais ele poderá utilizar suas ferramentas.

É essa possibilidade que preocupa Engels.

O receio não é simplesmente que uma IA fique mais inteligente. A questão é o que acontece quando inteligência, autonomia, capacidade de executar tarefas e acesso a ferramentas começam a se combinar em um único sistema.

A diferença entre uma IA poderosa e uma IA difícil de controlar

Modelos atuais já conseguem escrever código, pesquisar informações, operar ferramentas, analisar grandes volumes de dados e executar sequências de tarefas com pouca intervenção humana.

Isso muda a natureza do problema de segurança.

Um chatbot que responde a uma pergunta é relativamente simples de supervisionar. Um agente que recebe um objetivo e passa vários minutos ou horas planejando, utilizando ferramentas e reagindo aos resultados intermediários apresenta um cenário muito mais complexo.

Nesse caso, não basta perguntar se a resposta final está correta.

Também é necessário entender como o sistema chegou até ela, quais ações tomou pelo caminho e se alguma dessas ações violou as regras estabelecidas.

Essa é uma das áreas em que organizações como a METR vêm concentrando esforços.

A entidade afirma estudar capacidades autônomas, riscos de implantação, comportamentos que podem comprometer avaliações e incidentes nos quais agentes tomam ações sofisticadas contrariando a intenção humana.

Isso ajuda a explicar por que a preocupação de pesquisadores de segurança está mudando.

O debate já não envolve apenas cenários hipotéticos de um futuro distante. Parte da comunidade está tentando entender comportamentos observados em sistemas que já existem.

Incidentes recentes aumentaram a preocupação

Um dos episódios que colocou essa discussão no centro das atenções ocorreu em um incidente envolvendo agentes da OpenAI e a plataforma Hugging Face.

Segundo a avaliação apresentada pela METR, agentes participaram de uma operação coordenada que envolveu ataques cibernéticos durante vários dias. A organização passou a investigar o episódio para entender o comportamento dos modelos, sua capacidade de colaboração e o que aconteceu durante a interação com o ambiente externo.

O caso ganhou importância porque ilustra um problema diferente daquele enfrentado por sistemas tradicionais.

Quando vários agentes trabalham juntos, pequenas decisões individuais podem se combinar e produzir um comportamento muito mais complexo do que aquele observado em um único modelo.

É justamente esse tipo de situação que torna os testes de segurança cada vez mais importantes.

A pergunta deixa de ser apenas “o modelo pode fazer isso?” e passa a ser “o que ele fará quando tiver autonomia, ferramentas, tempo e outros agentes trabalhando ao seu lado?”.

Para pesquisadores de segurança, essa diferença pode ser decisiva.

O problema da velocidade

A preocupação de Engels também se conecta a uma questão maior: o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial.

Os principais laboratórios possuem fortes incentivos econômicos para criar modelos mais capazes. Cada avanço pode representar produtos melhores, novos mercados, maior participação empresarial e vantagem estratégica sobre concorrentes.

Isso cria uma corrida na qual desacelerar pode parecer uma desvantagem.

O problema é que segurança não necessariamente avança na mesma velocidade.

Uma empresa pode aumentar rapidamente a capacidade de um modelo, mas desenvolver métodos confiáveis para interpretar seu comportamento, identificar falhas e prever situações perigosas pode levar muito mais tempo.

É justamente essa diferença que especialistas em alinhamento tentam resolver.

Alinhamento, nesse contexto, significa desenvolver sistemas que sigam de maneira confiável as intenções e restrições definidas pelos seres humanos, inclusive em situações que não foram previstas durante o treinamento.

O desafio fica maior quando os sistemas começam a encontrar estratégias inesperadas.

Uma IA pode obedecer a uma instrução na maioria das situações e, ainda assim, encontrar uma maneira inesperada de atingir determinado objetivo quando colocada sob condições diferentes.

Para Engels, a humanidade precisa ganhar tempo para estudar esses comportamentos antes que a capacidade dos sistemas avance para um ponto muito mais difícil de administrar.

Engels não está sozinho

A saída do pesquisador acontece em um momento de crescente movimentação entre profissionais especializados em segurança de IA.

Recentemente, Jacob Coxon deixou a Anthropic depois de também trabalhar na OpenAI. Em uma publicação que ganhou enorme repercussão, ele criticou a velocidade com que os laboratórios estariam avançando em direção a sistemas capazes de se aperfeiçoar.

Outro pesquisador, Joe Benton, que ocupava uma posição de liderança em segurança na Anthropic, também deixou a empresa e passou a trabalhar na METR.

Os movimentos chamaram atenção porque não se tratam simplesmente de pesquisadores trocando de emprego dentro da indústria.

Em alguns casos, esses profissionais estão deixando grandes laboratórios para trabalhar justamente em uma organização independente que pretende investigar os riscos dos sistemas desenvolvidos por essas mesmas empresas.

Isso muda a posição de quem realiza a pesquisa.

Dentro de uma empresa, pesquisadores de segurança fazem parte da estrutura responsável pelo desenvolvimento do produto. Em uma organização independente, a proposta é produzir avaliações externas e criar evidências que possam ser examinadas por pesquisadores, empresas e governos.

A METR vem ampliando esse papel.

Em agosto, a organização informou que havia conseguido compromissos de aproximadamente US$ 71 milhões em financiamento nos seis meses anteriores. O dinheiro deve financiar trabalhos sobre capacidades autônomas, automelhoria recursiva, sistemas de monitoramento, avaliações de risco e investigação de incidentes envolvendo IA.

A indústria começa a discutir um freio

O debate ganhou uma dimensão ainda maior depois que Dario Amodei, CEO da Anthropic, publicou o ensaio “We Must Pace the Frontier”, no qual defendeu que o setor reduza o ritmo de avanço das capacidades dos modelos.

A posição é especialmente relevante porque Amodei não é um crítico externo da tecnologia. Ele está à frente de uma das principais empresas responsáveis pelo desenvolvimento de modelos de fronteira.

Em seu texto, o executivo argumenta que o objetivo não deveria ser interromper o progresso da IA, mas permitir que as pesquisas de segurança tenham tempo para acompanhar a evolução das capacidades.

Amodei apontou a automelhoria recursiva como uma de suas principais preocupações.

Ele também citou o incidente envolvendo agentes da OpenAI e da Hugging Face como um exemplo de comportamento que merece atenção. Segundo sua avaliação, sistemas mais capazes poderiam transformar comportamentos semelhantes em problemas de escala muito maior.

O plano proposto pelo executivo envolve três frentes principais:

  1. Aumentar a presença de avaliadores independentes dentro dos laboratórios de IA.
  2. Criar padrões de segurança coordenados entre países democráticos.
  3. Buscar, posteriormente, mecanismos de cooperação internacional mais amplos.

A Anthropic também anunciou que pretende conceder a avaliadores externos acesso permanente aos seus sistemas, com nível de acesso semelhante ao de funcionários, para que possam verificar medidas de segurança, investigar incidentes e avaliar aspectos de alinhamento.

O movimento mostra como uma preocupação que antes estava concentrada em pesquisadores especializados começa a alcançar a liderança das próprias empresas.

O dilema entre segurança e corrida tecnológica

Existe, porém, um obstáculo evidente.

Nenhuma empresa opera isoladamente.

Se uma companhia decidir reduzir o ritmo enquanto concorrentes continuam aumentando rapidamente a capacidade de seus modelos, existe o risco de perder mercado e vantagem tecnológica.

O problema fica ainda mais complexo quando governos entram na equação.

A inteligência artificial passou a ser tratada como uma tecnologia estratégica, com implicações econômicas, militares e geopolíticas. Uma desaceleração unilateral pode ser vista como uma oportunidade para concorrentes de outros países avançarem.

O próprio Amodei reconheceu essa dificuldade ao discutir a possibilidade de acordos internacionais. Segundo ele, qualquer tentativa de coordenação global precisaria levar em consideração a competição entre Estados Unidos e China e o risco de que um dos lados deixe de cumprir o acordo.

É por isso que a discussão atual não pode ser reduzida a uma simples disputa entre quem é “a favor” ou “contra” a inteligência artificial.

O debate real envolve uma pergunta muito mais difícil: qual velocidade de avanço permite aproveitar os benefícios da tecnologia sem ultrapassar a capacidade de supervisioná-la?

O que pode acontecer nos próximos cinco anos?

Engels fala em uma possibilidade preocupante de danos muito grandes dentro dos próximos cinco anos.

Isso não significa que o pesquisador esteja afirmando que uma catástrofe seja inevitável.

O alerta é sobre a possibilidade de uma mudança rápida demais na relação entre capacidade e controle.

Se sistemas futuros forem capazes de realizar pesquisas, desenvolver software, operar infraestrutura digital e contribuir para a criação de novas gerações de modelos, a própria velocidade do desenvolvimento poderá mudar.

Nesse cenário, métodos de segurança criados para sistemas de hoje podem deixar de ser suficientes para sistemas de amanhã.

Esse é um dos motivos pelos quais a pesquisa de segurança tenta avançar em paralelo ao desenvolvimento das capacidades.

A Google DeepMind, por exemplo, mantém uma estrutura específica para lidar com riscos associados a sistemas avançados. A empresa afirma que seu AGI Safety Council trabalha com a avaliação de riscos extremos relacionados a sistemas poderosos e que também mantém um Frontier Safety Framework para lidar com ameaças associadas aos modelos de fronteira.

O problema, portanto, não é a ausência completa de mecanismos de segurança. A questão é saber se esses mecanismos serão suficientemente eficazes quando os sistemas ficarem muito mais capazes.

Uma mudança importante no debate sobre IA

A trajetória de Josh Engels representa uma mudança interessante na discussão sobre segurança de inteligência artificial.

Em vez de abandonar a área, ele saiu de um grande laboratório para trabalhar em uma organização que pretende investigar, de maneira independente, os próprios comportamentos que podem representar riscos.

Isso também explica por que a METR ganhou tanta relevância recentemente.

A organização já mantém parcerias com grandes empresas de IA, mas sua missão é produzir avaliações sobre capacidades e riscos que possam ser analisadas de forma independente.

Enquanto isso, pesquisadores, executivos e autoridades públicas começam a convergir em torno de uma preocupação comum: o avanço da tecnologia pode estar chegando a uma fase em que velocidade, autonomia e capacidade de ação passam a importar tanto quanto a qualidade das respostas produzidas pelos modelos.

A grande incógnita é se a indústria conseguirá construir mecanismos de controle antes que precise deles em uma situação real.

Para Engels, esse intervalo de tempo é justamente o que está em jogo.

A inteligência artificial ainda pode produzir avanços extraordinários em ciência, medicina, programação e produtividade. Mas, quanto mais poderosos se tornam esses sistemas, maior é a responsabilidade de entender seus limites antes de colocá-los para operar com liberdade crescente.

A discussão dos próximos anos provavelmente não será apenas sobre qual empresa criou a IA mais inteligente.

Será também sobre quem conseguiu provar que ela pode ser controlada.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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