Google DeepMind cria instituto para colocar a AGI no centro do debate

Renê Fraga
8 min de leitura

Principais destaques

  • Novo fórum sobre AGI: pesquisadores do Google e da DeepMind lançaram um instituto para ampliar a discussão sobre inteligência artificial geral e reunir visões diferentes.
  • Transparência virou problema: pesquisadores defendem limites para sistemas cujo raciocínio fica cada vez mais difícil de acompanhar e fiscalizar.
  • Hassabis propõe supervisão: o cofundador da DeepMind sugere um organismo liderado pelos EUA para avaliar modelos de IA de fronteira antes de seu lançamento.

A corrida pela inteligência artificial geral, a famosa AGI, ganhou mais uma arena de disputa. Só que, desta vez, a ideia não é lançar um modelo novo.

O Google e o Google DeepMind anunciaram na quarta-feira o DeepMind Institute, criado para ampliar a conversa sobre o futuro da AGI e colocar diferentes perspectivas na mesma mesa.

Na direção estão Shane Legg, cofundador da DeepMind, James Manyika, executivo do Google, e Demis Hassabis, presidente do Google DeepMind. Legg também assume a função de editor-chefe.

A proposta é discordar também 🗣️

O instituto nasce com uma premissa curiosa para uma organização ligada a uma das maiores empresas de IA do mundo: as pessoas envolvidas não precisam concordar.

A própria apresentação afirma que Google, Google DeepMind e pesquisadores de outras partes do mundo provavelmente terão opiniões diferentes. E mais: essas opiniões podem mudar conforme novos dados e informações apareçam.

🔎 A ideia central: em vez de tratar a AGI como uma discussão com respostas prontas, o instituto quer acompanhar as mudanças na fronteira tecnológica e colocar as divergências em público.

A primeira coleção reúne quatro ensaios, abordando desde políticas econômicas para lidar com possíveis impactos da AGI até princípios para o florescimento humano.

Também entram na pauta a transparência do raciocínio dos modelos e uma proposta para avaliar sistemas de IA de fronteira.

O raciocínio das máquinas está ficando mais difícil de enxergar 👀

Um dos textos foi escrito pelos pesquisadores de segurança da DeepMind Rohin Shah e Anca Dragan.

O argumento é direto: a redução da transparência dos modelos de IA não precisa ser tratada como um destino inevitável.

Modelos mais avançados podem realizar processos internos cada vez mais difíceis de observar e verificar. Para pesquisadores e reguladores, isso cria um problema bastante concreto: como fiscalizar um sistema quando fica mais difícil entender o caminho que ele percorreu até chegar a uma resposta?

É aí que aparece o conceito de “opaque serial depth”, usado para descrever a quantidade de computação sequencial que um modelo consegue executar sem produzir um registro de raciocínio que possa ser lido e analisado.

💡 O ponto de tensão: quanto mais poderosa e opaca fica uma IA, maior pode ser a distância entre aquilo que o sistema faz e aquilo que humanos conseguem efetivamente monitorar.

Os autores defendem que desenvolvedores e reguladores deveriam enfrentar explicitamente esse trade-off de segurança.

Entre as possibilidades discutidas estão limitar essa profundidade de computação opaca ou exigir que os desenvolvedores demonstrem que sistemas menos transparentes continuam oferecendo níveis equivalentes de monitorabilidade.

E se a fiscalização vier antes do lançamento? 🧪

O segundo movimento importante aparece em um ensaio assinado por Demis Hassabis.

O executivo propõe a criação de um organismo de padrões para IA de fronteira liderado pelos Estados Unidos, responsável por avaliar os modelos mais avançados antes que eles sejam disponibilizados.

Inicialmente, a participação seria voluntária. As empresas poderiam enviar seus modelos para avaliação até 30 dias antes do lançamento.

EtapaComo funcionaria
Fase inicialEmpresas submetem voluntariamente os modelos para avaliação
EvoluçãoO sistema passa a desenvolver avaliações mais independentes
Possível fase obrigatóriaAprovação nos testes poderia virar requisito para implantação nos EUA

A proposta, portanto, começa com uma espécie de período de teste para o próprio mecanismo de fiscalização.

Se ele demonstrar que funciona, a aprovação poderia deixar de ser voluntária e se tornar uma exigência para a implantação de modelos de fronteira nos Estados Unidos.

O teste secreto entra em cena 🔐

Existe ainda um detalhe importante na proposta de Hassabis.

No começo, o organismo desenvolveria avaliações em consulta com as próprias empresas de IA. Mas, posteriormente, passaria a criar avaliações independentes e não divulgadas previamente.

São os chamados “held-out tests”.

A lógica é simples: se uma empresa conhece exatamente o teste antes de lançar seu modelo, pode otimizar o sistema especificamente para passar naquela avaliação.

Com testes que permanecem ocultos, essa possibilidade diminui.

🧩 A mudança de lógica: não basta saber as perguntas da prova. O modelo teria de continuar apresentando desempenho adequado diante de avaliações que seus desenvolvedores não conhecem antecipadamente.

E se a situação ficar séria demais? ⚠️

Hassabis também deixa aberta uma possibilidade mais forte.

O sistema poderia ser ampliado caso os riscos associados à tecnologia exigissem medidas adicionais. O ensaio menciona até uma eventual desaceleração coordenada entre desenvolvedores de IA de fronteira.

A proposta é apresentada como algo que poderia ser “ratcheted up”, ou intensificado, conforme a gravidade da situação.

Isso coloca o debate em um território diferente.

Não se trata apenas de pedir mais transparência às empresas ou criar padrões comuns. Em um cenário de salvaguardas consideradas insuficientes, a discussão passa a incluir a possibilidade de coordenar o ritmo de desenvolvimento dos sistemas mais avançados.

A conversa sobre segurança mudou de tom 📈

Os ensaios do novo instituto aparecem em um momento de mudança no debate sobre segurança da IA.

A discussão do setor vem se deslocando de declarações amplas sobre riscos para propostas mais concretas envolvendo divulgação de informações, avaliação externa e mecanismos de fiscalização.

E, quando essas salvaguardas não acompanham a velocidade dos avanços, surge uma proposta ainda mais sensível: desacelerar o desenvolvimento coordenadamente.

Essa mudança ganhou força nesta semana com o apoio de líderes do setor a elementos da proposta do CEO da Anthropic, Dario Amodei, para estabelecer um ritmo mais controlado para o avanço da IA de fronteira.

Afinal, quem fiscaliza quem? 🤔

É justamente aí que o DeepMind Institute pode ganhar relevância.

O instituto reúne pesquisadores e executivos diretamente envolvidos no desenvolvimento dessas tecnologias, mas afirma querer abrir espaço para perspectivas divergentes e para mudanças de posição conforme novas evidências apareçam.

A questão agora é menos sobre criar mais uma publicação sobre AGI e mais sobre quem ajudará a definir as regras enquanto a tecnologia avança.

É como construir os sinais de trânsito enquanto os carros já estão acelerando.

E, conforme os modelos ficam mais poderosos e difíceis de examinar, a próxima etapa dessa corrida pode depender não apenas de quem desenvolve a tecnologia mais avançada, mas de quais mecanismos serão criados para acompanhar o que acontece dentro dela.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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