Principais destaques
- Fortunas encolhem em um dia: Larry Page perdeu cerca de US$ 31 bilhões, enquanto Sergey Brin viu seu patrimônio diminuir aproximadamente US$ 29 bilhões.
- Resultados decepcionam Wall Street: a Alphabet ficou abaixo das expectativas de receita e lucro pela primeira vez em quase quatro anos, segundo a CNBC.
- A IA pressiona o negócio central: a desaceleração da receita com buscas e o aumento dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial ampliaram a preocupação dos investidores.
A inteligência artificial deveria abrir novas avenidas de crescimento para o Google. Mas, por enquanto, também está levantando uma pergunta incômoda para os investidores: e se a transformação da Busca começar a comprometer justamente o negócio que tornou a Alphabet uma das empresas mais valiosas do mundo?
Na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, essa preocupação ganhou uma tradução financeira gigantesca. Os cofundadores Larry Page e Sergey Brin perderam, juntos, cerca de US$ 60 bilhões em patrimônio estimado, depois que as ações da Alphabet despencaram mais de 12%.
💸 US$ 60 bilhões evaporaram no papel
Segundo estimativas da Forbes, Page perdeu aproximadamente US$ 31 bilhões, enquanto Brin sofreu uma redução de cerca de US$ 29 bilhões em sua fortuna.
A queda ocorreu após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, que decepcionaram as expectativas de Wall Street. Apesar do impacto, os dois empresários continuaram entre as pessoas mais ricas do planeta.
Page permaneceu na quarta posição, enquanto Brin ocupou o quinto lugar no ranking em tempo real da Forbes.
O detalhe importante: essas perdas representam a desvalorização estimada de seus patrimônios, e não dinheiro que os dois necessariamente retiraram de suas contas bancárias. Como grandes acionistas, suas fortunas oscilam conforme o preço das ações.
📉 A Busca começa a preocupar o mercado
A Alphabet divulgou seus resultados na quarta-feira, após o fechamento do mercado. Os números mostraram crescimento expressivo, mas insuficiente para atender às projeções dos analistas.
| Indicador do 3º trimestre | Resultado | Expectativa |
|---|---|---|
| Receita total | US$ 127,58 bilhões | US$ 128,22 bilhões |
| Lucro ajustado por ação | US$ 2,67 | US$ 3,02 |
| Receita com buscas | US$ 63,35 bilhões | US$ 64,96 bilhões |
| Receita do Google Cloud | US$ 30,71 bilhões | Acima de US$ 29 bilhões |
A receita total cresceu 25% na comparação anual. Mesmo assim, a empresa não conseguiu alcançar as estimativas de receita e lucro.
Foi um tropeço particularmente relevante porque, segundo a CNBC, era a primeira vez em quase quatro anos que a companhia ficava abaixo das expectativas nos dois indicadores simultaneamente.
🔎 O sinal de alerta está na publicidade: a receita com buscas cresceu 12%, mas ficou abaixo da projeção de US$ 64,96 bilhões. O ritmo de expansão também perdeu força por três trimestres consecutivos, depois de registrar crescimento de 19% no primeiro trimestre e 17% no segundo.
Para uma empresa que construiu boa parte de seu império sobre a publicidade vinculada às pesquisas, a desaceleração tem peso especial.
🤖 O Modo IA pode mudar a conta da publicidade
A preocupação não está apenas no crescimento da receita, mas também na forma como o Google pretende ganhar dinheiro com suas novas experiências de busca.
Segundo a Reuters, Philipp Schindler, diretor de negócios da Alphabet, atribuiu parte da desaceleração ao aumento do uso do Modo IA, a experiência conversacional integrada ao Google Search.
O problema é econômico: anúncios exibidos em uma experiência semelhante a um chatbot podem gerar receitas diferentes das obtidas no formato tradicional de resultados de pesquisa.
Isso não significa que a inteligência artificial necessariamente reduzirá a receita publicitária no longo prazo. Significa que o mercado quer evidências de que a nova experiência conseguirá preservar ou ampliar a monetização enquanto modifica o comportamento dos usuários.
💡 O dilema da Alphabet é transformar a Busca com inteligência artificial sem enfraquecer o modelo publicitário que sustenta boa parte de seus resultados.
A queda das ações refletiu justamente esse receio. Segundo a Bloomberg, a desvalorização eliminou mais de US$ 500 bilhões do valor de mercado da companhia na quinta-feira.
🏗️ Investimentos bilionários aumentam a pressão
A reação negativa também teve relação com os gastos necessários para sustentar a expansão da inteligência artificial.
A Alphabet investiu US$ 51,4 bilhões em despesas de capital no trimestre. Ao mesmo tempo, registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,07 bilhões, muito abaixo da expectativa dos analistas, que projetavam um déficit de aproximadamente US$ 2,70 bilhões, segundo a CNBC.
O Google Cloud apresentou um contraponto positivo, com receita de US$ 30,71 bilhões, mais que o dobro do valor registrado no período comparável, conforme os números divulgados.
Ainda assim, o desempenho não foi suficiente para compensar a diferença de US$ 1,4 bilhão na receita publicitária em relação às expectativas, segundo a Reuters.
Por que isso importa? Data centers, chips especializados e energia exigem investimentos elevados. O mercado precisa entender não apenas quanto a Alphabet está gastando para desenvolver IA, mas também quando esses investimentos começarão a gerar retornos compatíveis com seu custo.
📊 Investidores querem crescimento, não apenas promessas
A reação do mercado indica que os investidores estão ficando mais exigentes com as empresas que apostam grandes somas na inteligência artificial.
Dave Wagner, gestor de portfólio da Aptus Capital Advisors, afirmou à Reuters que, em um mercado preocupado com a possibilidade de a IA canibalizar o negócio principal, os investidores precisam ver a Busca acelerando, e não desacelerando.
A avaliação resume o conflito enfrentado pela Alphabet: a empresa precisa financiar a próxima geração de seus produtos sem deixar dúvidas sobre a rentabilidade de sua principal fonte de receita.
O Citizens também rebaixou a recomendação para as ações da companhia para market perform, equivalente a desempenho em linha com o mercado. Segundo a CNBC, o analista Andrew Boone destacou que, apesar do forte crescimento das buscas, a monetização enfrenta desafios.
🌐 Não é um problema exclusivo do Google
A Alphabet não está sozinha nessa pressão. Meta, Amazon e Oracle também enfrentam questionamentos de investidores sobre seus compromissos com data centers, chips e energia, segundo a Forbes.
O setor vive uma corrida para construir a infraestrutura necessária à inteligência artificial. O desafio é que os investimentos acontecem agora, enquanto parte dos benefícios financeiros ainda precisa ser comprovada.
Para Larry Page e Sergey Brin, a queda tem um significado particular. Ambos possuem cerca de 3% da Alphabet e, juntos, mantêm o controle majoritário dos votos, segundo a Forbes. Suas fortunas estão diretamente expostas à confiança do mercado na estratégia da empresa.
A perda de US$ 60 bilhões em um único dia não significa que o Google deixou de ser uma potência tecnológica. Mas mostra como essa confiança pode mudar rapidamente quando os resultados não acompanham as expectativas.
A próxima questão é se a Alphabet conseguirá provar que a inteligência artificial pode transformar a Busca sem comprometer sua capacidade de gerar receita. Para Page e Brin, a resposta pode valer muito mais do que a recuperação das ações: ela ajudará a determinar o valor de um império construído sobre pesquisas na internet.