Projeto Capricórnio: como a IA do Google cruza dados de pacientes com milhões de artigos científicos

Renê Fraga
5 min de leitura
Photo by Felipe Queiroz on Pexels.com

Principais destaques:

  • O Projeto Capricórnio roda sobre o BigQuery, a plataforma de dados do Google Cloud, e usa busca vetorial para varrer o PubMed.
  • O sistema cruza esse acervo científico com dados clínicos anonimizados do paciente, como mutações genéticas e testes de sensibilidade a medicamentos.
  • Em Guarapuava, a ferramenta identificou um padrão de instabilidade genômica que redirecionou a investigação de um câncer de origem até então desconhecida.

Já mostramos aqui no GD como o Paraná se tornou o primeiro estado brasileiro a levar uma IA do Google para dentro do SUS no combate ao câncer.

Desta vez, o foco é outro: entender a engrenagem por trás do Projeto Capricórnio. De onde vêm os dados, como a busca é feita e o que, na prática, muda na rotina de quem decide um tratamento.

Da consulta médica à busca vetorial no BigQuery

O Capricórnio foi desenvolvido pelo Google em parceria com o Princess Máxima Center, da Holanda, referência mundial em oncologia pediátrica.

Toda a base do PubMed, o banco de dados biomédico mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, que já reúne mais de 35 milhões de artigos e cresce entre 1,5 milhão e 1,7 milhão de novas publicações por ano, fica hospedada no BigQuery, a plataforma de armazenamento e processamento de dados do Google Cloud.

É ali que entra a busca vetorial: em vez de procurar por palavras-chave exatas, como faria uma pesquisa tradicional, o sistema converte o caso clínico em representações numéricas e localiza estudos com significado semelhante, mesmo quando os termos usados nos artigos são diferentes dos que o médico digitou.

Essa é a etapa que resolve um problema antigo da revisão manual: a divergência de nomenclatura entre publicações de diferentes países e especialidades.

Quais dados do paciente entram na equação

A busca não se limita à literatura. O Capricórnio cruza os artigos selecionados com um conjunto de informações clínicas do paciente, sempre anonimizadas: histórico médico, exames laboratoriais, mutações genéticas identificadas, testes de sensibilidade a medicamentos, características do tumor e respostas a tratamentos anteriores.

É esse cruzamento, literatura de um lado, perfil molecular do paciente de outro, que permite à IA apontar quais estratégias terapêuticas tiveram melhor desempenho em casos parecidos.

O caso que testou o sistema em Guarapuava

Um dos episódios mais citados pela equipe médica envolveu um paciente atendido havia mais de um ano no Hospital São Vicente, em Guarapuava, com um câncer de origem desconhecida.

O quadro já apresentava metástases nos linfonodos, nos ossos e na pleura, e desafiava a equipe desde o início.

Ao cruzar os dados moleculares do paciente com a literatura internacional, a ferramenta sinalizou que aquele padrão atípico costuma estar associado a instabilidade genômica, achado que levou a equipe a solicitar um painel genético focado.

Se confirmado, o resultado abre caminho para o uso de imunoterapia, algo que dificilmente seria cogitado com a mesma agilidade pela revisão manual de estudos.

O oncologista Nelson Morozini, do Hospital São Vicente, resume o papel da ferramenta nas reuniões multidisciplinares: ela funciona como uma espécie de segundo cérebro coletivo, reunindo em minutos referências que a equipe levaria muito mais tempo para localizar sozinha. Sem, no entanto, substituir a decisão médica final.

Segurança, LGPD e o que vem depois

Todo o processamento segue protocolos de anonimização e está sujeito à Lei Geral de Proteção de Dados. Nenhuma informação que identifique o paciente é incorporada às buscas feitas na base científica.

O Capricórnio integra o programa estadual Transforma IA, voltado a aplicar inteligência artificial em áreas como saúde, segurança pública, habitação, agricultura e educação.

Segundo o secretário da Inovação e Inteligência Artificial do Paraná, Marcos Stamm, os critérios para levar a ferramenta a outras unidades hospitalares serão definidos junto com a Secretaria da Saúde, à medida que os resultados dos dois hospitais pioneiros forem avaliados.

Do lado do Google Cloud, a especialista em Inovação e Saúde Digital Priscila Cruzatti afirma que o modelo testado na oncologia paranaense pode ser replicado em outras práticas clínicas, com neurologia e saúde da mulher entre as áreas citadas como próximos passos, sempre mantendo a decisão terapêutica nas mãos do profissional de saúde.

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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