Principais destaques
- O Google está levando o Ask Maps, recurso baseado no Gemini, para mais de 150 países e territórios, ampliando uma experiência que transforma buscas no Maps em conversas naturais.
- No Brasil, o recurso chegou em português e permite fazer pedidos mais específicos, como encontrar restaurantes com determinadas características e receber recomendações personalizadas em um mapa.
- Nos Estados Unidos, o Google está dando um passo além ao permitir que o Ask Maps prepare pedidos de comida, compare hotéis e encontre eventos, embora o usuário ainda precise aprovar compras e reservas.
O Google está redesenhando uma das funções mais tradicionais de seu ecossistema. O Maps, que durante anos foi associado principalmente a endereços, rotas e localização de estabelecimentos, está se transformando em uma experiência muito mais próxima de um assistente pessoal.
A mudança acontece com a expansão global do Ask Maps, recurso alimentado pelos modelos Gemini que permite conversar com o Google Maps para descobrir lugares, montar planos e responder perguntas que seriam difíceis de resolver com uma busca convencional.
Anunciado originalmente em março de 2026, o Ask Maps começou sua trajetória nos Estados Unidos e na Índia. Agora, o Google está ampliando a disponibilidade para mais de 150 países e territórios. A expansão inclui mercados como Brasil, Austrália, Canadá, Indonésia, Japão, México e Malásia.
No Brasil, a chegada tem um detalhe especialmente importante: o Ask Maps está disponível em português. O Google já havia apresentado a novidade durante o Google for Brasil 2026, mostrando exemplos de perguntas como encontrar lugares próximos com bons pastéis que aceitem vale refeição. A empresa informou na ocasião que o recurso seria liberado primeiro para os Guias Locais mais bem classificados e, posteriormente, para todos os usuários.
A proposta parece simples, mas representa uma mudança significativa na relação das pessoas com o Maps. Em vez de pensar em palavras-chave e fazer várias pesquisas diferentes, o usuário pode explicar o que está procurando como se estivesse conversando com outra pessoa.
Google quer que você converse com o Maps
Imagine que alguém esteja planejando uma viagem de carro e queira encontrar lugares interessantes no caminho. Em uma experiência tradicional, seria necessário pesquisar atrações, restaurantes, pontos turísticos, avaliações e depois montar manualmente o roteiro.
Com o Ask Maps, a ideia é condensar boa parte desse processo em uma conversa.
O usuário pode perguntar quais são os melhores lugares para parar durante determinado trajeto, pedir opções com uma característica específica e continuar refinando a pesquisa. Também pode procurar um restaurante tranquilo para conversar, encontrar um local adequado para determinada ocasião ou descobrir atividades disponíveis em uma região.
Essa capacidade de entender perguntas mais complexas é um dos pontos centrais da novidade. O Google afirma que o Ask Maps foi desenvolvido para responder questões do mundo real que um mapa tradicional não conseguiria solucionar apenas mostrando pontos no mapa.
Um exemplo apresentado pela empresa envolve uma pessoa que precisa carregar o celular, mas não quer esperar muito tempo em um café. Em vez de procurar primeiro por cafés e depois verificar avaliações e características de cada estabelecimento, ela pode simplesmente explicar a situação ao Maps.
O sistema utiliza os modelos Gemini para interpretar o pedido e combinar essa compreensão com os dados disponíveis no Google Maps.
E existe uma quantidade enorme de informações por trás dessa experiência. Segundo o Google, o Maps analisa dados de mais de 300 milhões de lugares e informações produzidas pela comunidade de usuários, que reúne mais de 500 milhões de colaboradores.
Isso ajuda a explicar por que o Google considera o Maps uma peça especialmente importante para sua estratégia de inteligência artificial. Diferentemente de um chatbot que precisa buscar informações externas para responder a uma pergunta sobre um lugar, o Maps já possui uma enorme quantidade de dados estruturados sobre estabelecimentos, avaliações, localização e rotas.
O Gemini entra justamente como a camada capaz de interpretar o que a pessoa está tentando fazer.
Essa combinação também permite que a resposta seja visual. Em vez de entregar somente um texto, o Ask Maps pode apresentar recomendações acompanhadas de um mapa personalizado, facilitando a comparação entre as opções.
O usuário também pode continuar a conversa. Se a primeira resposta não for exatamente o que queria, pode acrescentar novas condições e refinar a busca.
É uma mudança sutil na interface, mas bastante importante. O Google deixa de exigir que a pessoa saiba exatamente como pesquisar e passa a tentar compreender a intenção por trás da pergunta.
Do planejamento à ação: Google começa a testar agentes no Maps
A expansão internacional do Ask Maps não é a única novidade. Nos Estados Unidos, o Google também está adicionando capacidades chamadas de agênticas, aproximando o Maps de um assistente capaz de executar etapas de uma tarefa.
A diferença é importante.
Uma inteligência artificial tradicional pode recomendar um restaurante. Um sistema com recursos agênticos pode receber uma instrução mais ampla, pesquisar opções, comparar resultados e preparar a próxima etapa.
No caso do Ask Maps, o Google está começando pelos pedidos de comida. O usuário pode pedir que o sistema encontre um restaurante no caminho para casa e prepare um pedido com determinados itens.
O Google dá como exemplo uma solicitação para pedir comida picante com frutos do mar para retirada no caminho. O Ask Maps pode procurar restaurantes abertos ao longo da rota, verificar quais oferecem o prato desejado e considerar informações como lugares salvos e necessidades alimentares específicas.
A integração inicial envolve plataformas como Square e Toast. O Google também informa que o suporte ao Uber Eats está em desenvolvimento.
Mas existe uma diferença fundamental entre deixar a IA fazer o trabalho pesado e entregar a ela controle completo sobre uma compra.
O Google está mantendo o usuário no comando.
O Ask Maps pode encontrar o restaurante, selecionar os produtos e preparar o pedido, mas a pessoa precisa revisar e aprovar a transação antes que ela seja concluída.
A mesma lógica vale para outras áreas que estão sendo exploradas pela empresa. A inteligência artificial pode ajudar a comparar hotéis, encontrar eventos e apresentar alternativas, mas a decisão final continua sendo humana.
Essa escolha parece fazer parte de uma preocupação maior do Google com o uso de agentes. À medida que sistemas de IA começam a executar ações no mundo real, uma recomendação é muito diferente de uma compra efetivamente realizada.
O Google quer que a inteligência artificial economize tempo, mas sem retirar do usuário a última palavra.
A estratégia também se conecta com outras iniciativas da empresa. O Google já vem levando recursos agênticos para o AI Mode da Busca, incluindo ferramentas para encontrar reservas em restaurantes. Em experiências de reserva, a IA pode pesquisar múltiplas plataformas e apresentar opções disponíveis para que o usuário finalize o processo.
No Maps, essa evolução faz ainda mais sentido porque o aplicativo já conhece o contexto geográfico da tarefa.
Se alguém pedir uma refeição para retirar no caminho para casa, por exemplo, o sistema não precisa apenas procurar restaurantes que vendem determinado prato. Ele também precisa considerar a rota, o horário, o funcionamento do estabelecimento e outras preferências.
É justamente esse tipo de tarefa com várias etapas que o Google pretende tornar mais natural.
A empresa também está explorando reservas de hotéis e descoberta de eventos. Por enquanto, essas funções comerciais mais avançadas permanecem concentradas nos Estados Unidos, enquanto o Ask Maps básico começa a chegar a uma quantidade muito maior de países.
Inteligência Pessoal deixa o Maps mais parecido com um assistente
Outro elemento importante dessa transformação é a chamada Inteligência Pessoal.
A ideia é permitir, de forma opcional, que o Ask Maps utilize informações disponíveis em outros serviços do Google para produzir respostas mais personalizadas.
Isso pode fazer uma diferença enorme em situações de viagem.
Imagine que uma pessoa receba no Gmail uma confirmação de voo para outra cidade. Com a Inteligência Pessoal, o Google poderá usar esse contexto para ajudar a encontrar hotéis próximos ao destino ou sugerir restaurantes e atividades para o período da viagem.
O objetivo não é simplesmente responder “onde fica determinado restaurante”. A proposta é entender por que a pessoa está procurando aquele restaurante naquele momento.
Esse tipo de personalização faz parte de uma estratégia mais ampla do Google para conectar Gemini a diferentes produtos e informações do usuário. A empresa vem trabalhando para que seus modelos consigam compreender contexto, preferências e atividades realizadas em diferentes serviços.
No caso do Maps, isso pode transformar completamente a experiência de planejamento.
Uma viagem, por exemplo, normalmente envolve dezenas de pequenas decisões. Onde ficar, onde comer, quais atrações visitar, como chegar, onde estacionar e o que fazer depois.
O Ask Maps pretende funcionar como uma camada de conversa sobre todas essas decisões.
O histórico das conversas também ajuda nesse processo. Segundo o Google, o usuário poderá retomar uma sessão anterior e continuar o planejamento. Uma pergunta como “quais eram mesmo as atividades que você sugeriu para minha viagem?” pode recuperar o contexto de uma conversa anterior.
Essa característica aproxima ainda mais o Maps de um assistente pessoal tradicional.
Em vez de abrir o aplicativo somente quando precisa de uma rota, a pessoa pode passar a utilizá-lo durante todo o processo de planejamento.
O Google também vem reforçando essa integração com recursos que já estavam chegando ao Maps. Em março, a empresa apresentou o Ask Maps junto com o Immersive Navigation, uma reformulação importante da experiência de navegação que utiliza modelos Gemini para interpretar informações de imagens do Street View e fotografias aéreas, além de apresentar uma visão mais detalhada do caminho.
A intenção é clara: transformar o Maps de uma ferramenta que simplesmente mostra o caminho em uma plataforma que ajuda a pessoa a decidir o que fazer antes, durante e depois do deslocamento.
Essa evolução também mostra por que o Google considera a chegada do Ask Maps uma das maiores mudanças do Maps em mais de uma década. A empresa está combinando três elementos que já existiam separadamente: a enorme base de informações do Maps, a capacidade de conversação do Gemini e novas ferramentas capazes de executar etapas de tarefas.
O resultado pode mudar a forma como as pessoas pesquisam lugares.
Em vez de “restaurante italiano perto de mim”, uma pergunta pode se tornar algo como “encontre um restaurante italiano tranquilo, com boas avaliações, que fique no caminho e seja adequado para um jantar de duas horas”.
A diferença está menos no resultado final e mais na maneira de chegar até ele.
O usuário não precisa dominar a lógica de pesquisa do Google. Ele simplesmente explica o que deseja e deixa a inteligência artificial interpretar as condições.
Ainda existem limites. As funções que envolvem transações, pedidos e reservas não estão disponíveis globalmente, e o próprio Google trata algumas dessas experiências como recursos novos e experimentais.
Mesmo assim, a expansão do Ask Maps mostra uma direção bastante clara.
O futuro do Google Maps não parece ser apenas um mapa mais inteligente. A empresa está tentando transformar o aplicativo em uma espécie de copiloto para a vida fora de casa, capaz de entender intenções, considerar contexto, sugerir possibilidades e, cada vez mais, ajudar a transformar essas sugestões em ações.
Para os usuários brasileiros, a chegada em português torna essa mudança especialmente relevante. O Maps passa a entender pedidos mais naturais e específicos, aproximando a inteligência artificial de situações comuns do dia a dia.
E essa pode ser apenas a primeira etapa.
À medida que os recursos agênticos forem chegando a outros mercados, o Google terá a oportunidade de transformar o Maps em algo que vai muito além de encontrar endereços: uma ferramenta que ajuda a decidir para onde ir, o que fazer, onde comer, onde ficar e até como organizar cada etapa do caminho.