Google ainda não descobriu como ganhar dinheiro com IA como ganha com a busca

Renê Fraga
9 min de leitura

Principais destaques

  • Buscas em alta, receita desacelerando: as consultas no Google crescem no ritmo mais rápido em cinco anos, mas a expansão da receita publicitária perdeu força.
  • IA ainda rende menos: as pesquisas feitas pelo AI Mode estão crescendo rapidamente, porém geram menos receita por consulta do que as buscas tradicionais.
  • Investimentos sob pressão: a Alphabet planeja gastar cerca de US$ 200 bilhões neste ano, enquanto investidores questionam o retorno financeiro de sua aposta em inteligência artificial.

O Google enfrenta um problema que, à primeira vista, parece contraditório: as pessoas estão pesquisando mais, mas a empresa não consegue transformar esse crescimento em receita publicitária no mesmo ritmo de antes.

A questão ganhou força após a divulgação dos resultados financeiros da Alphabet, controladora do Google. No terceiro trimestre de 2026, a receita da busca continuou crescendo, mas alguns indicadores importantes perderam velocidade justamente quando a empresa se prepara para investir centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial.

É uma mudança importante para uma companhia que construiu boa parte de seu negócio sobre uma fórmula relativamente simples: responder às pesquisas e vender anúncios relacionados à intenção dos usuários.

📉 Mais pesquisas, mas menos impulso financeiro

Segundo os resultados divulgados pela Alphabet, as consultas no Google Search estão crescendo no ritmo mais acelerado dos últimos cinco anos. Mesmo assim, a receita do mecanismo de busca aumentou 12% em relação ao mesmo período do ano anterior, abaixo dos aproximadamente 17% registrados no trimestre precedente.

A desaceleração também aparece nos cliques em anúncios pagos, uma das principais fontes de receita da empresa.

IndicadorTrimestre anterior3º trimestre de 2026
Crescimento da receita da buscaCerca de 17%12%
Crescimento dos cliques pagos13%8%

Os números continuam positivos. A receita não está caindo, mas crescendo em um ritmo menor. Para investidores que acompanham uma empresa com investimentos gigantescos em IA, essa diferença importa.

💰 O detalhe que faz diferença: não basta atrair mais usuários ou gerar mais consultas. O Google também precisa garantir que essas interações continuem produzindo receita publicitária suficiente.

🤖 O AI Mode muda a lógica dos anúncios

Uma das explicações para essa desaceleração pode estar na própria transformação do Google.

Com o AI Mode, a empresa oferece uma experiência de busca mais conversacional, na qual o usuário pode fazer perguntas complexas, receber respostas sintetizadas e continuar explorando um assunto sem necessariamente navegar por uma lista tradicional de links.

Esse modelo pode tornar a pesquisa mais útil, mas também muda a dinâmica comercial.

Nas buscas convencionais, os anúncios aparecem em posições relativamente conhecidas, associadas às palavras-chave pesquisadas. Em uma experiência conversacional, encontrar o momento certo para exibir publicidade relevante, sem prejudicar a resposta, pode ser mais complicado.

Segundo Philipp Schindler, diretor de negócios do Google, as consultas no AI Mode estão crescendo fortemente, mas apresentam uma monetização inferior à das pesquisas tradicionais.

💡 O desafio não é apenas levar a IA para a busca. É fazer com que essa nova experiência continue gerando receita na mesma escala do negócio que ela está transformando.

Schindler também afirmou que os efeitos cambiais e as mudanças nos gastos de anunciantes de determinados setores contribuíram para a desaceleração. Ele disse ainda que a empresa está satisfeita com sua trajetória e que os experimentos publicitários têm apresentado resultados promissores.

Ainda não está claro, porém, quanto da diferença reflete uma introdução gradual dos anúncios e quanto revela uma dificuldade mais estrutural de monetizar pesquisas feitas com IA.

💸 US$ 200 bilhões para sustentar a aposta em IA

A questão fica mais delicada quando os investimentos entram na conta.

A Alphabet planeja gastar aproximadamente US$ 200 bilhões em 2026, principalmente em infraestrutura para sustentar suas ambições em inteligência artificial. Isso inclui a capacidade computacional necessária para desenvolver e executar modelos e serviços de IA em grande escala.

O mercado, naturalmente, quer saber quando esse investimento vai se traduzir em resultados financeiros proporcionais.

Após a divulgação dos resultados, as ações da Alphabet caíram cerca de 14%, segundo os dados citados pela reportagem original do The Verge. A reação refletiu preocupações com os custos e o retorno esperado dos investimentos em IA, mesmo diante do crescimento das atividades da companhia.

🔎 O risco para o Google: a empresa precisa financiar uma transformação tecnológica cara sem comprometer a capacidade de seu principal negócio de gerar dinheiro.

A dificuldade não é exclusiva do Google. A indústria de tecnologia está investindo pesadamente em infraestrutura de IA, enquanto tenta descobrir quais produtos, modelos de assinatura e formatos publicitários serão capazes de sustentar esses gastos no longo prazo.

No caso do Google, entretanto, a pressão é particularmente relevante porque a busca não é apenas mais um produto. Ela é uma peça central de seu modelo de negócios.

🧭 Uma mudança que pode redefinir a publicidade digital

Nate Elliott, analista principal da eMarketer especializado em IA e publicidade, descreveu a situação como a primeira grande ruptura enfrentada pelo negócio central do Google em décadas.

A avaliação ajuda a dimensionar o problema. Durante anos, a empresa aperfeiçoou seu sistema de publicidade enquanto expandia o alcance do mecanismo de busca. A IA generativa introduz uma experiência diferente, que pode alterar a forma como os usuários descobrem informações e como os anunciantes alcançam potenciais clientes.

Há três questões que passam a importar cada vez mais:

  • Relevância: como inserir anúncios em respostas geradas por IA sem comprometer a confiança do usuário?
  • Monetização: como gerar receita suficiente quando uma conversa pode substituir várias pesquisas tradicionais?
  • Escala: como transformar uma experiência mais cara de oferecer em um negócio rentável para bilhões de usuários?

Esses fatores estão interligados. Uma publicidade excessiva pode prejudicar a experiência; anúncios insuficientes podem dificultar a recuperação dos investimentos em infraestrutura.

O Google ainda tem uma vantagem importante: sua escala de usuários, seu ecossistema de anunciantes e sua experiência em publicidade digital. Mas essas vantagens não garantem que o modelo econômico da busca tradicional possa ser simplesmente transferido para a IA conversacional.

O Google precisa provar que a próxima busca também dá dinheiro

A desaceleração da receita não significa que o negócio de buscas esteja em declínio. Os indicadores apresentados continuam mostrando crescimento, e a empresa afirma estar avançando na adaptação de sua publicidade.

O ponto central é outro: a expansão do uso de IA não garante, por si só, uma expansão equivalente da receita.

Se o AI Mode conquistar cada vez mais espaço, o Google precisará demonstrar que consegue monetizar essa experiência sem transformar suas respostas em vitrines publicitárias nem comprometer a utilidade do serviço.

A próxima etapa da disputa não será definida apenas pela qualidade dos modelos ou pela quantidade de consultas. Será definida também pela capacidade de fazer a inteligência artificial funcionar como negócio.

E essa é uma pergunta que vale muito mais do que uma busca: o Google conseguirá preservar a máquina de publicidade que construiu enquanto ensina seus usuários a pesquisar de outra maneira?

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Renê Fraga é fundador do Google Discovery (GD) e editor-chefe do Eurisko. Profissional de marketing digital, com pós-graduação pela ESPM, acompanha o Google desde os anos 2000 e escreve há mais de duas décadas sobre tecnologia, produtos digitais e o ecossistema da empresa. Criador do Google Discovery em 2006, tornou-se referência na cobertura do Google no Brasil e foi colunista do TechTudo (Globo.com), compartilhando análises e conhecimento com um grande público.
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